Eu não consigo e nunca conseguirei me
ver no momento presente, no agora. Não existe no presente nenhuma representação
minha para ser apreciada. Até mesmo quando olho diretamente para o espelho,
pelo tempo que for, eu sempre verei minha imagem no passado, pois o cérebro faz
a interpretação da imagem captada pelos olhos e isso, por mais rápido que seja,
precisa de um tempo (incalculável) para acontecer, mas é o tempo suficiente
para tirar a própria imagem do presente, do agora.
Assim a minha mente nunca conseguirá
acompanhar o agora ou o presente, porque ela necessita fazer uma tradução, uma
identificação com algo conhecido e no caso do espelho sou eu mesmo. O ato de
ver, o ato de enxergar não é simultâneo ao agora. O agora, o presente ele não é
estático, mas é imóvel e imutável. O agora não se encaixa na interpretação da
própria imagem, ele não está nem nesse momento porque o tempo que leva para o
cérebro interpretar a própria imagem refletida no espelho ou transcorrida no
pensamento é o tempo suficiente para eu sair do presente e voltar para a mente.
E é, basicamente, por isso que a mente
humana tem tanta dificuldade em aceitar que ela própria não existe no agora, no
presente. Sempre que eu penso no agora eu não estou no presente. Eu estou no
pensamento, na mente que identifica uma imagem, um som, um cheiro, etc.
O ponto de estar no presente, no agora
não está em sair da interpretação de imagem, som, cheiro, etc., mas apenas não
aderir, não se identificar com isso. Eu interajo com tudo sem me afetar com as
consequências do que percebi ou senti. Eu vivo no presente, mas convivo com a
interpretação das imagens que minha mente precisa para se alocar no tempo. Eu
vivo no agora e desprezo as informações que a minha mente interpretativa
constantemente me apresenta. Não me interessa se aquele aroma é doce ou se o
sabor é salgado ou se o ar é quente ou se está escuro. Nada disso me diz algo
no agora e isso tudo acontece em mim ao mesmo tempo.
Eu estou no presente, no agora? Estou?
Nenhum comentário:
Postar um comentário