domingo, 1 de abril de 2018

Desejo por prazer


O desejo é o principal opositor ao desenlace espiritual seja ele qual for. Tanto é assim que uma grande batalha da meditação é para silenciar a mente e suprimir, entre outras coisas, a intenção de desejar. Não vou avançar nesse ponto no momento.
A latência do desejo é sentida na mente e no corpo. Desejar é uma das grandes experiências da vida. Perceber o desejo crescer e entender que a satisfação desse desejo é necessária nos remete a um ponto crucial de nossa curta vida: o prazer.
Desejar é a forma que nossa mente nos indica uma probabilidade de prazer, mas o desejo por si só não alimenta a intenção de satisfazê-lo. Para realizar o desejo é preciso identificar a fonte do prazer. A associação do desejo ao que irá satisfazê-lo é o que torna a concretização prazerosa, pois desejo e prazer estão associados diretamente à conquista e posse.
Conquistar satisfaz de imediato, é o prazer instantâneo mesmo que às vezes com consequências problemáticas. Possuir é o prazer da conquista adicionado a facilidade de desfrutar, contemplar, mostrar e, até mesmo, compartilhar.
Nós nos adaptamos durante nossa vida a desejar de tudo. Desejamos saúde, bens de consumo, segurança, conhecimento, patrimônio, lazer e uma infinidade outras coisas. Mas uma forma de desejo é especialmente complexa: o desejo por outro humano. Nada reflete de forma tão clara a ambiguidade de nossa existência quanto o desejo por uma mulher ou homem. Esse desejo é perspectiva de diversas maneiras de prazer, mas também encaminha ao sofrimento.
Desejar uma companhia é algo que está inserido em nossa complexa genética. Inicia no princípio básico de continuidade da espécie e trilha as mais diversas possibilidades. Não vou dar destaque para os distúrbios associadas à conquista e posse de outro humano, apesar de serem muitos, pois prefiro abordar o caminho que explora as variantes da relação sadia.
A construção da relação entre pessoas invariavelmente surge da manifestação de interesse de apenas uma das partes, pois raros são os casos do interesse mutuo simultâneo. Quando surge o interesse de uma das partes inicia o desenrolar da conquista, que será construída em pontos de afirmação. Esse interesse tem como combustível o desejo por algo que a nossa percepção entende que a outra pessoa oferece. Esse algo subentendido é a possibilidade de satisfação do nosso desejo.
Como o desejo mais fremente é no âmbito sexual é aqui que vemos o desenrolar do interesse se expandir. Os pontos de união no interesse sexual são inicialmente instintivos e vão da facilidade, disponibilidade até o desafio, aceitação. O desejo sexual é bem amplo e um tanto obscuro, visto que ao longo da evolução da humanidade foi mal construído e hoje reflete esse equívoco das mais variadas formas.
O desejo sexual é direcionado ao prazer e como tal será oferecido como sendo um ponto de afirmação na construção da relação. A manifestação do desejo sexual pressupõe que em algum momento exista a possibilidade de efetivar o ato sexual, esse é outro ponto de afirmação na construção da relação. Como instinto básico de sobrevivência da espécie a capacidade natural de realizar o ato sexual sempre será considerada como positiva exceto, é claro, quando não exista desejo sexual de uma das partes e é por isso que na construção da relação vamos estabelecendo diversos pontos de afirmação.
Conforme nossa espécie está evoluindo na capacidade mental de formulação de ideias e pensamentos, o desejo sexual está sendo confrontado com uma nova série de interesses que se sobrepõe as manifestações naturais de desejo e capacidade sexual. Essa evolução que nos permite avaliar mais coisas em nossos prováveis parceiros e, assim, criar facilidades de entrosamento entre ambos, também desvia em parte o foco do desejo pelo ato sexual. Esse desejo, apesar de estar presente, passa a configurar uma parte da equação que tendemos a querer montar para encontrar e manter um parceiro.
Na equação do desejo pelo prazer o peso do equilíbrio está tomando uma parte muito importante do próprio resultado. Sentir que me identifico, num amplo aspecto da vida, com meu parceiro é quase mais importante que a capacidade que esse parceiro tenha de me oferecer desejo e capacidade sexual. Essa relação de identificação será ambientalmente muito bem ajustada, mas poderá carecer de afinidade verdadeira na exploração do desejo e da prática do ato sexual.
O desejo por prazer sexual para ser satisfeito de forma plena não pode ser relativo. Ele necessita da concreta satisfação física da experiência real, muito mais do que à expectativa de entendimento mental. As fases mentais do desejo não são resolvidas sem à experiência em si, pois de nada adianta ter uma relação sexual no plano da fantasia, com a projeção do contato físico idealizado, sem o calor dos beijos, sem os carinhos da exploração mutua, sem os aromas e sensações da preparação, sem os ajustes dos corpos, das palavras, da respiração que conduzem ao grande momento de entrega e realização. Se isso tudo for apenas uma perspectiva mental não realizável não existirá prazer e não resistirá a própria relação entre as partes envolvidas.
O desejo por prazer sexual se amplia quando encontramos um parceiro compatível na realização do ato sexual em si. Essa ampliação do desejo é o combustível que faz expandir a intimidade entre os parceiros. E a intimidade quando é concedida por ambos desejos de prazer só faz o próprio ato sexual aumentar em intensidade, entrega e disposição. Gerando assim mais prazer e mais desejo.
O desejo por prazer sexual quando satisfeito traz consigo uma outra variante de interesses. Essa variante leva, infelizmente, a uma contradição, pois é normal que todo o humano que esteja plenamente satisfeito no âmbito do desejo sexual aponte o seu foco de para outro ponto da relação vivida ou para outro desejo não satisfeito. Isso é humano e nós somos assim.