O
desejo é o principal opositor ao desenlace espiritual seja ele qual for. Tanto
é assim que uma grande batalha da meditação é para silenciar a mente e
suprimir, entre outras coisas, a intenção de desejar. Não vou avançar nesse
ponto no momento.
A
latência do desejo é sentida na mente e no corpo. Desejar é uma das grandes
experiências da vida. Perceber o desejo crescer e entender que a satisfação
desse desejo é necessária nos remete a um ponto crucial de nossa curta vida: o
prazer.
Desejar
é a forma que nossa mente nos indica uma probabilidade de prazer, mas o desejo
por si só não alimenta a intenção de satisfazê-lo. Para realizar o desejo é
preciso identificar a fonte do prazer. A associação do desejo ao que irá
satisfazê-lo é o que torna a concretização prazerosa, pois desejo e prazer
estão associados diretamente à conquista e posse.
Conquistar
satisfaz de imediato, é o prazer instantâneo mesmo que às vezes com
consequências problemáticas. Possuir é o prazer da conquista adicionado a
facilidade de desfrutar, contemplar, mostrar e, até mesmo, compartilhar.
Nós
nos adaptamos durante nossa vida a desejar de tudo. Desejamos saúde, bens de
consumo, segurança, conhecimento, patrimônio, lazer e uma infinidade outras
coisas. Mas uma forma de desejo é especialmente complexa: o desejo por outro
humano. Nada reflete de forma tão clara a ambiguidade de nossa existência
quanto o desejo por uma mulher ou homem. Esse desejo é perspectiva de diversas
maneiras de prazer, mas também encaminha ao sofrimento.
Desejar
uma companhia é algo que está inserido em nossa complexa genética. Inicia no
princípio básico de continuidade da espécie e trilha as mais diversas
possibilidades. Não vou dar destaque para os distúrbios associadas à conquista
e posse de outro humano, apesar de serem muitos, pois prefiro abordar o caminho
que explora as variantes da relação sadia.
A
construção da relação entre pessoas invariavelmente surge da manifestação de
interesse de apenas uma das partes, pois raros são os casos do interesse mutuo
simultâneo. Quando surge o interesse de uma das partes inicia o desenrolar da
conquista, que será construída em pontos de afirmação. Esse interesse tem como
combustível o desejo por algo que a nossa percepção entende que a outra pessoa
oferece. Esse algo subentendido é a possibilidade de satisfação do nosso
desejo.
Como
o desejo mais fremente é no âmbito sexual é aqui que vemos o desenrolar do
interesse se expandir. Os pontos de união no interesse sexual são inicialmente
instintivos e vão da facilidade, disponibilidade até o desafio, aceitação. O
desejo sexual é bem amplo e um tanto obscuro, visto que ao longo da evolução da
humanidade foi mal construído e hoje reflete esse equívoco das mais variadas
formas.
O
desejo sexual é direcionado ao prazer e como tal será oferecido como sendo um
ponto de afirmação na construção da relação. A manifestação do desejo sexual
pressupõe que em algum momento exista a possibilidade de efetivar o ato sexual,
esse é outro ponto de afirmação na construção da relação. Como instinto básico
de sobrevivência da espécie a capacidade natural de realizar o ato sexual
sempre será considerada como positiva exceto, é claro, quando não exista desejo
sexual de uma das partes e é por isso que na construção da relação vamos
estabelecendo diversos pontos de afirmação.
Conforme
nossa espécie está evoluindo na capacidade mental de formulação de ideias e
pensamentos, o desejo sexual está sendo confrontado com uma nova série de
interesses que se sobrepõe as manifestações naturais de desejo e capacidade
sexual. Essa evolução que nos permite avaliar mais coisas em nossos prováveis
parceiros e, assim, criar facilidades de entrosamento entre ambos, também
desvia em parte o foco do desejo pelo ato sexual. Esse desejo, apesar de estar
presente, passa a configurar uma parte da equação que tendemos a querer montar
para encontrar e manter um parceiro.
Na
equação do desejo pelo prazer o peso do equilíbrio está tomando uma parte muito
importante do próprio resultado. Sentir que me identifico, num amplo aspecto da
vida, com meu parceiro é quase mais importante que a capacidade que esse
parceiro tenha de me oferecer desejo e capacidade sexual. Essa relação de
identificação será ambientalmente muito bem ajustada, mas poderá carecer de
afinidade verdadeira na exploração do desejo e da prática do ato sexual.
O
desejo por prazer sexual para ser satisfeito de forma plena não pode ser
relativo. Ele necessita da concreta satisfação física da experiência real,
muito mais do que à expectativa de entendimento mental. As fases mentais do
desejo não são resolvidas sem à experiência em si, pois de nada adianta ter uma
relação sexual no plano da fantasia, com a projeção do contato físico
idealizado, sem o calor dos beijos, sem os carinhos da exploração mutua, sem os
aromas e sensações da preparação, sem os ajustes dos corpos, das palavras, da
respiração que conduzem ao grande momento de entrega e realização. Se isso tudo
for apenas uma perspectiva mental não realizável não existirá prazer e não
resistirá a própria relação entre as partes envolvidas.
O
desejo por prazer sexual se amplia quando encontramos um parceiro compatível na
realização do ato sexual em si. Essa ampliação do desejo é o combustível que
faz expandir a intimidade entre os parceiros. E a intimidade quando é concedida
por ambos desejos de prazer só faz o próprio ato sexual aumentar em
intensidade, entrega e disposição. Gerando assim mais prazer e mais desejo.
O
desejo por prazer sexual quando satisfeito traz consigo uma outra variante de
interesses. Essa variante leva, infelizmente, a uma contradição, pois é normal
que todo o humano que esteja plenamente satisfeito no âmbito do desejo sexual
aponte o seu foco de para outro ponto da relação vivida ou para outro desejo
não satisfeito. Isso é humano e nós somos assim.